Hoje, dia
13 de maio, estaríamos agitados e felizes em meio às numerosas tarefas para o
início do XI Seminário Nacional de Sociologia e Política.
No
entanto, estamos agora em casa ocupados com outras tarefas. Em lugar de
ficarmos atentos aos atrasos dos vôos, é o pico de uma curva que merece nossa
atenção inquieta. Ao invés de contarmos o número de inscritos de cada estado,
contabilizamos o número de mortos vítimas do COVID 19. Estamos agora lavando
nossas compras em vez de distribuirmos crachás; e os equipamentos cujo
funcionamento mais nos preocupam não são projetores e microfones do auditório,
mas os respiradores das UTIS e os roteadores de wifi em nossa casa: ambos
trazem oxigênio aos pulmões e corações sufocados. Muitos de nós estamos,
também, substituindo a leitura de papers para uma audiência especializada, pela
declamação de uma história infantil para filhos e filhas ou de um livro de
receitas para nossas avós com olhos cansados. E quando nos perguntam se estamos
bem, a gente responde que sim, na medida do improviso e do impensável.
O XI
Seminário foi, em razão da pandemia, adiado para uma data ainda incerta. Talvez
no início de outubro de modo remoto; talvez em outra data mais distante quando
possamos comemorar juntos alguma boa notícia. É sinceramente o que desejamos,
contrariando uma espécie de tradição, iniciada em 2016, quando, a cada ano,
durante o seminário, ocorreram episódios emblemáticos que sinalizaram
aprofundamento da instabilidade política e o declínio do processo democrático
em nosso país.
Ainda que
saibamos que acontecimentos dessa natureza têm se espalhado pelos nossos dias
com cada vez mais frequência, para nós do PPGSOCIO/UFPR, a memória do Seminário
nos últimos 5 anos está especialmente marcada. Lembremos que, no ano de 2016,
na mesma noite de abertura do VII Seminário, em 12 de maio, o Senado decidiu
pela abertura do processo de impeachment e afastou Dilma Rousseff do cargo; em
2017, a VIII edição iniciou no dia em que veio a público o áudio que ficou
conhecido como a “delação da JBS” ; no ano seguinte, o último dia do IX
Seminário coincidiu com o anúncio da greve nacional dos caminhoneiros; e,
finalmente, em 2019, o X Seminário iniciou poucos dias após a notícia do bloqueio
de 30% dos recursos das Instituições de Ensino Federais, transformando sua
abertura num manifesto em favor das universidades públicas.
Em todos
esses anos, e desde 2009, estivemos juntos e pudemos nos abraçar. Agora, em
2020, infelizmente estamos distantes, exilados dentro de nossas casas,
conectados pelos temores e pelo luto diante de tanta vida perdida e de tanta
desumanidade desvelada, mas também ligados por um compromisso com as ciências
sociais e com o ideal de uma sociedade mais democrática, igualitária e humana.
O tema do
XI Seminário foi pensado em razão desta cronologia e da consciência de nossas
prioridades enquanto cientistas e cidadãs.
Agora, de
certo, sabemos apenas que refletir sobre as “Intermitências da democracia e
desigualdades sociais” será ainda mais crucial porque diz respeito à fenômenos
que serão acentuados pelos resultados das ações e omissões que estamos
testemunhando no contexto da pandemia. Vivemos também na certeza de que
precisaremos muita força para demonstrar a importância das ciências sociais, já
que, conforme o próprio vírus nos mostra, estamos todos conectados (ainda que,
muitas vezes, mais ligados por laços de exploração e insolidarismo, do que de
solidariedade).
Enfim,
estamos aqui para dizer que nesse momento tão difícil em que, além de tudo, as
ciências sociais se tornam tão necessárias quanto desprezadas, desejamos que
cada prestadora e prestador de serviço, técnica e técnico, monitora e monitor,
participante, convidada e convidado e coordenador e coordenadora do XI Seminário
se sinta suficientemente sensível e suficientemente forte para honrar nossos
compromissos e as lutas que dele decorrem (e que não são senão a nossa
esperança). Desejamos que estejam cuidando de si para que possamos nos ver em
breve aqui na UFPR, no pátio da Reitoria sob a luz de uma primavera ou outono.
Um grande
abraço,
Simone
Meucci
Fernando
Lajus
Lislaine
Guimarães
Virginia
Therezinha Kestering
Valesca
Ames
Tatiane
S. Almeida
Ana Julia
Guilherme
Ramiro
Gabriel Garcia
Gilmar de
Almeida
Jhenifer
Baptista
Eduardo
da Silva