Vivemos um tempo atravessado por fraturas profundas. Conflitos armados, desigualdades estruturais persistentes, intolerâncias, crises das instituições públicas, deslocamentos forçados e disputas de narrativas moldam o cotidiano das sociedades contemporâneas. Em um cenário de polarizações e fragmentações crescentes, os museus são convocados a assumir, com responsabilidade ética, consistência técnica e compromisso público, seu papel estratégico na garantia de direitos, na qualificação do debate público e na construção de horizontes democráticos. Com o tema “Museus: unindo um mundo dividido”, a 24ª Semana Nacional de Museus propõe uma reflexão estruturante sobre o papel dessas instituições na garantia do direito à memória, na promoção da justiça social e no fortalecimento da participação cidadã. Mais do que espaços de preservação e exposição, os museus se afirmam como agentes ativos na consolidação da democracia cultural, assegurando acesso plural aos bens culturais, às narrativas históricas e aos processos de produção de sentido. O direito à memória constitui dimensão essencial dos direitos culturais e fundamento de uma sociedade comprometida com a dignidade humana. Ele assegura que indivíduos e coletividades tenham reconhecidas, preservadas, interpretadas e difundidas suas histórias, saberes e patrimônios — materiais e imateriais. Garantir esse direito implica enfrentar silenciamentos históricos, reconhecer processos de apagamento, combater invisibilizações e promover condições equitativas de representação. Fortalecer as práticas democráticas exige reconhecer que as desigualdades são estruturadas por múltiplos marcadores sociais — como pertencimento étnico-racial, classe social, gênero, identidade de gênero, orientação sexual, deficiência, território e geração — que produzem experiências desiguais de acesso aos direitos culturais. Uma abordagem interseccional permite compreender como esses marcadores se articulam e se reforçam, configurando sistemas complexos de poder, privilégio e exclusão. Tal perspectiva convoca os museus a adotarem práticas institucionais conscientes, inclusivas, acessíveis e orientadas à reparação simbólica e histórica. É igualmente fundamental reconhecer que, ao longo de sua trajetória, o museu esteve frequentemente associado a narrativas hegemônicas e a processos de legitimação que privilegiaram determinadas vozes em detrimento de outras. Revisitar criticamente essa herança não enfraquece a instituição — ao contrário, fortalece sua legitimidade contemporânea, amplia sua função pública e qualifica sua capacidade de diálogo com a pluralidade social. A definição contemporânea de museu aprovada pelo Conselho Internacional de Museus reafirma essas instituições como permanentes, sem fins lucrativos, a serviço da sociedade, abertas ao público, acessíveis e inclusivas, comprometidas com a diversidade, a sustentabilidade e a atuação ética e participativa. Esse marco estabelece parâmetros claros de responsabilidade social e orienta a coerência entre princípios e práticas institucionais.
Unir um mundo dividido exige mais do que boas intenções. Exige revisão de estruturas, atualização de metodologias, democratização de processos decisórios e ampliação efetiva da participação social. Implica perguntar: quem decide o que deve ser preservado? Quais memórias são legitimadas e quais permanecem invisibilizadas? Quem participa da construção das narrativas museais? Que barreiras — físicas, comunicacionais, digitais, atitudinais, simbólicas ou econômicas — ainda limitam o acesso pleno aos direitos culturais? Responder a essas questões requer compromissos institucionais consistentes: incorporar, de forma estruturante, as memórias e saberes de povos indígenas, comunidades quilombolas, populações negras, povos e comunidades tradicionais, pessoas com deficiência, mulheres, população LGBTQIAPN+, juventudes, pessoas idosas, migrantes e demais grupos historicamente excluídos; assegurar acessibilidade ampla como princípio permanente de gestão; fortalecer mecanismos de escuta ativa e construção compartilhada de narrativas, acervos e programações; e articular-se de forma transversal com políticas públicas de educação, direitos humanos, igualdade étnico-racial, sustentabilidade e desenvolvimento territorial. Os museus preservam registros das dores, das resistências e das criações que constituem a experiência social. Ao reconhecer conflitos e desigualdades, contribuem para processos de reparação simbólica e amadurecimento institucional. Ao promover experiências educativas críticas e sensíveis, ampliam o pensamento reflexivo e estimulam a participação ativa da sociedade na definição dos sentidos atribuídos ao patrimônio cultural. Promovida pelo Instituto Brasileiro de Museus, em comemoração ao Dia Internacional dos Museus (18 de maio), a 24ª Semana Nacional de Museus mobiliza milhares de instituições em todo o território nacional. Exposições, seminários, oficinas, visitas mediadas e ações educativas realizadas entre 18 e 24 de maio constituem oportunidades concretas para reafirmar o museu como espaço público de exercício cidadão e de redistribuição simbólica do poder de narrar histórias. Unir um mundo dividido não significa eliminar conflitos ou homogeneizar experiências. Significa criar condições institucionais e simbólicas para que diferenças coexistam com dignidade, reconhecimento e corresponsabilidade. Significa afirmar o museu como território de direitos e de participação social, onde a memória se converte em instrumento de aprendizado coletivo e de construção compartilhada de futuros mais equitativos. A 24ª Semana Nacional de Museus é, portanto, um convite e um desafio. Transformar princípios em prática. Converter compromissos em ações estruturantes. Reafirmar, no cotidiano institucional, que o museu é espaço vivo, crítico e necessário para a construção de uma sociedade plural, democrática e comprometida com a dignidade humana.
Em Abaetetuba
Desde 2018 o Museu do Baixo Tocantins, vem recebendo artistas, comunidades, instituições culturais e educativas, no afã apresentar a universidade como um espaço que pode confrontar as diferenças e buscar diálogos comuns, que atravessam o patrimônio cultural dos povos e comunidades tradicionais, oferecendo não só equipamentos, objetos e informações, mas, formações e criações coletivas, capazes de reconhecer, preservar, expor e divulgar os bens culturais do Território do Baixo Tocantins.
Em 2025 inauguramos a casa ribeirinha- espaço formativo e expositivo- que representa as tradições ribeirinhas em sua dinâmica cultural, aproximando o público acadêmico, pesquisadores e mestres (as) da cultura, no intuito de promover a diversidade em meio ao desafio de ser Amazônia. Por isso, nessa edição iremos propiciar o abraço simbólico na casa ribeirinha como gesto de cuidado e guarda da memória coletiva.