Num contexto de crise múltipla, pensar apenas a contenção não é possível. Para quem trabalha na produção do ambiente construído, é necessário considerar que interações e interdependências adquiriram, mais que nunca, importância central. Arquitetos, Designers e Planejadores, todos precisamos olhar a crise como parte de uma cadeia de acontecimentos complexa em que as soluções propostas dão origem a novos problemas. O mundo sujeito à policrise não é estático, está vivo: a sua crise modifica o ambiente, e o ambiente modifica os termos da crise.
Adam Tooze, historiador britânico, recuperou o termo Policrise, de Edgar Morin, no final de 2021 e seu uso se generalizou após o início da guerra na Ucrânia, tendo inclusive se tornado tema de abertura do debate no Fórum Econômico Mundial de Davos.
“Na policrise, os choques são díspares, mas interagem entre si, de modo que o todo se afigura maior do que a soma das partes….O que torna as crises dos últimos quinze anos tão desastrosas é que já não parece plausível apontar para uma causa única e, consequentemente, uma solução única” (Adam Tooze…).
Edgar Morin definiu, ainda na década de 1970, a policrise como uma situação em que “crises interligadas e sobrepostas” assumem a forma de um “complexo interdependente de problemas, antagonismos, crises e processos incontroláveis” que formam “a crise geral do planeta”(Morin, …).
Há um sentido de urgência que não pode ser subestimado. Covid-19 e a crise sanitária que suscitou intervenção pública massiva; conflitos bélicos se estendendo no tempo, Ucrânia, Gaza; catástrofe climática, crise ecológica – tornaram os contextos social, geopolítico e econômico ainda mais complexos de gerenciar.
Trata-se, de fato, de buscar, sem demora, modos de superar a intensificação de processos como o aquecimento global, como a recorrência de fenômenos climáticos extremos, como a destruição acelerada da biodiversidade, da desertificação, do comprometimento dos recursos hídricos, entre outras graves manifestações de uma crise, que sendo chamada de ambiental, não pode induzir a que se pense que se restringe a “fenômenos naturais”, que suas implicações impactam o conjunto da vida social do planeta, em sentido catastrófico e pluridimensional. Com efeito, sem dramatizar o que é hoje de amplo conhecimento e contundente efetividade, o que está em jogo hoje é a própria sobrevivência da vida humana.
Nos dias atuais, quando podemos falar tanto de uma urbanização planetária quanto da urgência de resgatar a natureza no processo de urbanização, exige-se investigar as possibilidades de continuidade e de transformação da vida urbana em todas as suas escalas.
Por um lado, é preciso pensar a relação de interdependência entre cidade e natureza; há um imperativo ecológico que agora encontra seu sentido no atual estágio do desenvolvimento urbano ao redor do planeta mas, muito singularmente, nas configurações das imensas áreas metropolitanas, de que o Brasil é exemplo bem acabado.
Quando o impacto das cidades sobre o meio ambiente local e global provoca uma consciência de crise; quando a vulnerabilidade climática se torna um importante indicador de desigualdades sociais cada vez mais politizadas, a consequência urbana é explícita.
É preciso aprender a restabelecer profundamente os vínculos do pensamento arquitetônico e urbano com os bens e recursos ambientais, refletindo sobre os complexos fluxos metabólicos entre sociedade e natureza. Pensar a produção e o uso da cidade em necessária conjugação com a natureza implica investigar as condições do habitat coletivo, para compreender suas dinâmicas, conhecer os riscos a que este estará submetido a cada vez mais para saber mitigar as catástrofes.
E, estrategicamente, uma investigação transdisciplinar sobre a interação de cidade e natureza deve ter como meta o aprendizado da variedade que constitui a vida urbana - cidades reúnem os mundos humano e não-humano; podem ser densas, extensas, se organizar em torno de características urbano-rurais, bem como dar visibilidade à natureza contida e submersa na cidade, resgatando-a e dela tornando-se parte com vistas a desenhar perspectivas de futuros mais promissores.
De outro lado, cidade e crise - as desigualdades socioespaciais vem se aprofundando e solapando de forma inaceitável a construção de alternativas de inserção para uma parte significativa da população. Compreender as novas formas de constituição das estruturas de poder, suas várias manifestações territorializadas, formais e informais, instituídas e paralelas, constitui um esforço essencial para (re)construir o lugar do comum, do coletivo, da insurgência e da autonomia, com vistas a uma praxis urbana democrática e inclusiva.
Significa pensar também a relação entre a urbanização em relação aos processos de digitalização e neoliberalização, com implicações como polarização política assimétrica, erosão da comunidade política, crise das democracias representativas liberais, e o ressurgimento de formas autoritárias de gestão da vida social.
Afinal, uma reflexão feita pelos campos de Arquitetura, Urbanismo e Design, organizada em torno de natureza e crise quando vividas desde a cidade está, precisamente, ocupada com o futuro. Filosoficamente, está em jogo, por meio da cidade, o limite de uma determinada história material - o uso do mundo.
Desde a primeira modernidade ocidental, que determinou sociedades cada vez mais urbanas, vivemos essa expectativa de futuro que afinal chegou, para um modelo que, talvez, agora se apresente em seus últimos desdobramentos, uma vez que tudo aquilo que foi nossos instrumentos de conquista e aprimoramento no uso do solo, nossa relação coletiva com objetos, artefatos e indústria, parece demandar um novo horizonte de possibilidades.
Num contexto de mudanças sociais e de complexo cenário político global, em que os marcos de uma série de acontecimentos apontam a desintegração da ordem liberal, parece crucial indagar até que ponto a ideia consolidada e tradicional de desenvolvimento urbano pode ser flexionada com uma nova ordem mundial em que se considere a limitação do crescimento incontrolado da economia.
A cidade requer uma visão transdisciplinar, em termos tanto teórico-metodológicos quanto de práticas sociais, que merecem aprofundamento de reflexões, análises e propostas. Ou seja, para além da agregação de abordagens disciplinares ou tratamento funcionais e técnicos, o espaço socialmente produzido exige para sua análise e planejamento, uma perspectiva múltipla e integrada, com a integração das dimensões econômica, social, política, ambiental, espacial associadas às diversas disciplinas, e às políticas públicas setoriais
Acrescente-se a isto as preocupações com a natureza do desenvolvimento econômico, seus necessários limites e suas repercussões ambientais e sociais. São transformações profundas que passam a exigir novos aportes teórico-metodológicos tanto para sua análise quanto para a identificação de formas de planejamento e de regulação urbano-ambiental que sejam capazes de contribuir para o desenvolvimento nacional mais autônomo e para o equacionamento e solução das consequências socioespaciais perversas dessas transformações.
Deve-se ainda levar em conta que o momento do planejamento tecnocrático baseado apenas no saber técnico-científico, uma herança do iluminismo, já passou. Novos saberes da vida cotidiana precisam ser levados em conta nas análises dos ambientes urbano, regional e natural. É necessário que se aprofunde a reflexão sobre estas questões de uma forma ao mesmo tempo transdisciplinar e voltada ao entendimento das especificidades.