Embora redigida a modo de uma
grande resenha sobre “O Anti-Narciso”, uma dessas “obras imaginárias, ou melhor,
invisíveis, aquelas das quais Borges foi o melhor comentador”, o livro Metafísicas
canibais: Elementos para uma antropologia pós-estrutural, de Eduardo
Viveiros de Castro, possui uma estatura própria. Reflexão do estado a
antropologia social moderna, síntese de um pensamento atravessado ao mesmo
tempo pela etnografia e pela filosofia e exposição conceitual do chamado
“perspectivismo ameríndio”, a obra a princípio ensaia sobre o entrecruzamento
do estruturalismo de Lévi-Strauss, do “pós-estruturalismo” de Deleuze e
Guattari e da cosmologia perspectivista de povos amazônicos, como os Araweté.
No entanto, ao longo de suas 288 páginas, Viveiros de Castro abre um leque de
questões filosóficas importantes que, tomadas isoladamente, servem de substrato
para discussões diversas: do estatuto do conceito filosófico de Amigo (e seu
avesso agonístico) à problemática da comunicação ontológica, passando pelo
diálogo transdisciplinar, pela crítica da práxis antropológica, pelos desafios
à ontologia tradicional fornecidos pelas chaves da “antropofagia” e da prática
xamânica, pela indiscernibilidade entre pensamento e política, bem como pelo
espanto que o pensar do Outro — no caso, o ameríndio — produz sobre os
pressupostos basilares da filosofia ocidental.
Neste grupo de leitura em formato
de minicurso, destinado especialmente a estudantes e pesquisadores de
filosofia, bem como a leigos e diletantes interessados no assunto, passaremos
“dente a dente” pelos treze capítulos que constitui a obra, retomando o
percurso de pensamento que culminou na proposição do “perspectivismo ameríndio”
e demorando-se sobre algumas das principais problemáticas, relevantes para o
pensamento filosófico, em especial naquilo que o subverte, devolvendo aos
filósofos uma imagem de pensamento com a qual não se reconhecem.